DÉCADA DE 1970

Por isso, não me passava pela cabeça que a comissão organizadora do 17º Salão de Artes Plásticas para Novos pudesse rejeitar meu conjunto de ambientais2, minha primeira tentativa poética local de afirmar algo naquele momento. Mas foi o que aconteceu. Minha obra, gestada no fermento da contracultura, foi recusada.

UNIDOS NA DOR E NA TRAGÉDIA DA HUMANIDADE

Ação individual – interferência poética durante abertura do Salão dos Novos na Secretaria da Cultura do Paraná.

  A contracultura floresce sempre e onde quer que alguns membros de uma sociedade escolham estilos de vida, expressões artísticas e formas de pensamento e comportamento que sinceramente incorporam o antigo axioma segundo o qual a única verdadeira constante é a própria mudança. A marca da contracultura não é uma forma ou estrutura em particular, mas a fluidez de formas e estruturas, a perturbadora velocidade e flexibilidade com que surge, sofre mutação, se transforma em outra e desaparece. 3

O que os membros da comissão não sabiam é que, viajante do delírio poético de uma geração corajosa4, já havia conhecido a dupla Abelardo Zaluar e Augusto Rodrigues, assim como Ivan Serpa e Rubens Gerchman, além de ter frequentado o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, participando ativamente dos Domingos de Criação (brincadeiras coletivas), organizados pelo crítico de arte Frederico de Moraes: esta arte ao mesmo tempo ambiental, sensorial e corporal, como é sabido, provocou enorme interesse na Inglaterra, onde Hélio Oiticica reside atualmente, já tendo realizado duas exposições em Londres e Sussex, assim como, nos Estados Unidos, as propostas igualmente sensoriais de Lygia Clark despertam a atenção dos meios científicos, sobretudo entre os jovens psicólogos.

Em ambos os artistas brasileiros a ”obra“ é frequentemente o corpo (“a casa é o corpo”), melhor, o corpo é o motor da obra. Ou, ainda, é a ele que a obra leva. A descoberta do próprio corpo. O que é de suma importância em uma época em que a máquina e a tecnologia alienam o homem não só de seus sentidos, mas de seu próprio corpo. Uma das características do meio tecnológico é a ausência. O distanciamento. O homem nunca está de corpo presente: sua voz é ouvida no telefone, sua imagem aparece no vídeo da TV ou na página do jornal. As relações de homem a homem são cada vez mais baratas, são estabelecidas através de signos e sinais.5 Porque da liberdade de expressão nunca abri mão, ter o trabalho recusado foi para mim uma condição inaceitável. A autonomia que me fora negada haveria de ser então sublimada por um gesto meu, com a colaboração de personagens emblemáticos, símbolos universais da liberdade, da paz e do bem viver. Desde a manhã do dia em que fui informado da recusa, dediquei-me à construção da peça principal da minha ação. Imaginei uma cúpula que envolvesse principalmente a cabeça, encaixada no corpo, para liberar toda a revolta guardada em meu peito.

Materializada em arame e papel, tinha de ser uma estrutura simples e leve, pois eu teria de carregá-la com os pássaros que iriam completar minha ação. Durante muitos dias dei água e comida para meus “parceiros”, pois queria cultivar familiaridade. Eles realizariam na prática o desejo imaginário de voar de todo artista em especial, mas dos homens em geral. A intenção era chegar de surpresa ao local, principalmente porque no meio artístico ainda não se falava em interferência, tampouco em intervenção. O cerimonial de praxe já tinha dado o evento como aberto ao público. Sem pedir licença, entrei vestido com aquele acessório, surpreendendo a todos. No interior do recinto, lancei o primeiro pássaro. Em seguida outro e mais outros. Ao todo dez, pois havia decidido que seriam tantos quantos os dedos de minhas mãos. O movimento performático acontecia em círculo, alterando o fluxo habitual e interferindo radicalmente no evento. Individualmente ou em bando, os pássaros davam voltas e retornavam, pousando no artefato sobre minha cabeça. O espaço como um todo foi preenchido pela revoada dos pássaros e pela emoção provocada no local, causando momentos raros de magia e encantamento. (Que seria de nós sem a liberdade criativa?)

Naquela configuração, assomou a irreverência como valor absoluto da Arte. Ao reunirem-se beleza e poesia, restaurou-se a grandeza do artista. Realizou-se, assim, de forma antecipada, a imaterialidade pelo gesto invisível na ação visível junto ao voo maior para o infinito e imensurável. O diretor da instituição organizadora do evento ensaiou ameaças, todavia desistiu, por ter sido imediatamente desaprovado pelos demais artistas presentes. A profª. Adalice Araújo, presente na ocasião, pontualmente comentou em sua página semanal no Diário do Paraná6:

Recorte do Diário do Paraná sobre o trabalho de Gleusa Salomon e comentário de Adalice Araújo sobre o surpreendente episódio no evento.

A artista Gleuza Salomon7, premiada no referido evento, comentou em depoimento o que viu naquela noite de abertura do referido Salão:

“A Forma e a Curva”: Surpresas Inesquecíveis A arte moderna, contemporânea, aprendeu, talvez um pouco tarde, na sua própria história, a lição de Jacques Lacan: ele explora o fato de que o fundamental em um quadro é a moldura. Duchamp foi o primeiro a descobrir e a explorar isso, sabendo que basta tomar uma base sólida, etiquetá-la e pousar sobre ela um objeto da realidade. Se for feito por um artista, isso se metamorfoseia em obra de arte. Ele o descobriu e explorou discretamente. É claro, isso se fundamenta em um reconhecimento prévio do artista e supõe o que representa um artista junto a outros artistas.

Jacques-Alain Miller

O fazer artístico me causa surpresas. São inesquecíveis aquelas do Salão dos Novos de 1973, em Curitiba. Tanto pela criação de uma nova modalidade artística, como pela correspondente premiação: uma dupla surpresa e ambas me eram concernentes. Também surpreendente – o meu olhar se perde na revoada de pássaros que toma conta do Salão – na arte de protesto e/ou happening: a instalação de Sergio Moura. Homem-pássaro, cujas asas, de tão pesadas, não o deixam voar, na metáfora mallarmeana do poeta.

Essa experiência escópica – entramos no campo do desejo, ali – vivida nesse Salão, contextualizou-se em Sergio Moura, o qual ali encarna a própria obra de arte, portando a voz de sua geração, a voz de nosso tempo. Igualmente, aquelas peças retiradas por mim de uma casa em demolição estavam ali expostas e nomeadas. “A Forma e a Curva” representava a escada helicoidal e a porta, emolduradas em cores lilases, cujos suportes de base continham um texto – esses objetos linkavam o ready-made ao conceitual. Outro elemento foi trabalhado, dessa vez apenas pelo discurso, pois não foi exposto. No entanto terá a sua função e, além do mais, só será revisitado em caso de uma aleatória escavação. Tratava-se, enfim, de um tubo de concreto pesando uma tonelada, que significava, para mim, a forma e a curva em um único objeto. Nele, e na escada, imprimi com os meus pés os passos que circundavam a forma curvilínea e finita, assim como os degraus em espiral relativizavam a verdade e o tempo.

A cidade viveu intensamente aquele Salão, o qual provocou um burburinho como o farfalhar de asas desejosas, idênticas àquelas que atravessaram o nosso campo visual, dividindo o campo artístico em um antes e um depois – realizado num tempo obscuro de nossa história recente. Porém ali se enunciava um tempo novo. Principalmente a arte-performer de Sergio Moura. Neles encontrei a arte. E a artista que sonhava ser.

Após considerar suficiente o resultado, retirei-me em silêncio, deixando no local tudo o que havia levado. Estava consumada a sublimação da censura imposta. Como resposta, um ato criador, sob o ponto de vista poético, sensorial, informal, lúdico, crítico, provocativo, efêmero e, sobretudo, dignificante, na definitiva afirmação daquilo que tanto o artista para a arte quanto o homem para a vida devem preservar como de maior valor e do qual jamais deverão abrir mão.

NOTAS

(1)    ARAÚJO, Adalice Maria de. Dicionário das Artes Plásticas no Paraná. Curitiba: Edição do Autor, 2006.

(2)  Na época se denominava ambiental o que atualmente se chama instalação.

(3)  LEARY, Timothy. Escritor americano ícone da contracultura, psicólogo, politizador dos expansores da consciência que destruiu o autoritarismo. Ficou famoso como um proponente dos benefícios terapêuticos e espirituais do LSD. Nos anos 80, fascinado pelos computadores, Leary criou softwares de design e continuou escrevendo livros e fazendo conferências. Embora o seu tópico principal agora fosse tecnologia, ele ainda era reconhecido como o guru da psicodelia dos anos 60.

(4)  MAY, Rollo. Psicanalista americano da Califórnia dedicado ao estudo e à pesquisa sobre a criatividade e os processos criativos. Falecido em 1993, tinha como prática habitual conviver com artistas, para conhecer o processo de cada um deles. Incansável em fazer associações entre criatividade e coragem, o autor enfatiza continuamente a necessidade de o indivíduo libertar-se dos medos que bloqueiam a mente e anulam a livre expressão e todo o ser. Escreveu vários livros de reflexões sobre a arte, entre os quais A coragem de criar e Minha busca da beleza.

(5)  MORAES, Frederico de. Diretor do MAM carioca no final dos anos sessenta, promovia encontros criativos nos jardins entre o museu e o Aterro do Flamengo, que ficaram conhecidos por Domingos de Criação. Eram também chamados de “brincadeiras coletivas”, que funcionavam em círculos, como as cantigas de roda vividas na infância. A ideia essencial baseava-se na diversão coletiva por meio do jogo e da brincadeira. Na troca de brinquedos com afeto, gestos com movimentos corporais e também sentimentos, pensamentos e emoções reinavam no coração dos participantes a mais pura alegria de ser e o prazer de viver em grupo. Balões enchidos por meio de sopro eram jogados para cima e/ou para os lados, envolvendo a todos, que ora pulavam contentes, ora se jogavam abraçados no chão. A atividade, que também fazia uso de outros materiais alternativos improvisados, se estendia e normalmente se completava numa grande festa. Todos os que se aproximavam “entravam na roda”, que tomava proporções grandiosas. Na cabeça, havia o ideal vivo do relacionamento saudável e cooperativo em comunidade. Viver juntos e relacionar-se com outras pessoas era para o imaginário daquela geração o mais puro êxtase da humanidade reencontrada. Na atmosfera de total espontaneidade, reinava a constante informalidade. Recriou-se ali, talvez, a mais difícil das experiências humanas: viver com intensidade cada momento, compartilhando a alegria, a paz e o amor. Valorizando o presente total, dignificou-se para sempre a plenitude da Vida com o ardor que não conhece limite nem fim.

(6)  A profª. Adalice Maria de Araújo, em depoimento no Diário do Paraná, menciona o surpreendente acontecimento como referencial aos Encontros de Arte Moderna realizados na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, em Curitiba.

(7)  SALOMON, Gleuza. Artista e psicanalista, publicou, em coautoria, os livros As figuras do vazio (1997) e O brilho da infelicidade (1998). Foi coordenadora do Fórum Social do Mercosul, em 2008.

Sergio Moura ▪ Artista multimídia voltado ao desenvolvimento pessoal, à educação sensível e ao aprimoramento do ser criativo. www.aartedesergiomoura.wordpress.com http://artixxaoarlivre.blogspot.com

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