PRAÇA DA ARTE (Praça Eufrásio Correia)1977 – Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap)

Introdução – Contexto

Para mim era inconcebível dentro uma escola da arte os alunos dos cursos não se relacionarem e não demonstrarem mínimo interesse em torno do que pensavam, faziam e estudavam. Havia uma apatia, uma tristeza, um clima de permanente negação que causava separação quase intransponível entre os estudantes. E na fisionomia deles era visível o medo talvez acrescido pelo fato de estarmos em pleno regime militar.

LOGO semeadorPraça da Arte

Visão coletiva e colaborativa de mundo,  reunindo, religando e promovendo encontro integrador entre artistas, e sobretudo com o público. Idealizado para ser um movimento cultural inter- estudantil na Escola de Música e Belas Artes do Paraná com a insinuante proposta de causar ampla interferência na realidade cotidiana da instituição, e sobretudo visando integração entre os colegas dos diferentes cursos. A iniciativa tinha intenção de mobilizar a categoria, organizando-a em torno dos ideais característicos da atividade e do ser artista.

Momento solene em que a Embap, representada pela Profª Henriqueta Garcez recebe do Prefeito Saul Raiz a Praça Eufrásio Correia para que esta se torne a Praça da Arte que imaginei e propus.

Momento solene em que a Embap, representada pela Profª Henriqueta Garcez, recebe do Prefeito Saul Raiz a Praça Eufrásio Correia para que esta se torne a Praça da Arte que imaginei e propus. EDUARDO NASCIMENTO fez a foto, enquanto escutávamos a banda da Polícia Militar tocar o hino do Paraná.

O ponto de partida

De imediato, visualizamos a imagem do Semeador, posteriormente desenhada e fotografada da escultura do artista paranaense Zaco Paraná, localizada na Praça Eufrásio Correia, em Curitiba. Pelo fato da proposta exaltar movimento em construir e cultivar, associados ao gesto de lançar sementes, adotamos sua imagem como nosso ícone principal. Em texto coletivamente criado entre colegas entusiasmados com o movimento gerado, completamos o cartaz com o mote poético que resumiu e completou o enfoque da proposta.

“Curitiba vai viver uma nova experiência. Céu aberto, cheiro de verde. Arte brotando, na tela, na massa, na pedra, o buril, o grafite manchando formas, o coração dançando. Um espaço conquistado”.

Cartaz em papel, formato 50 X 70 CM, produzido pela Imprensa Oficial, veiculado para divulgar o projeto PRAÇA DA ARTE, em 1977 Curitiba.

Como funcionava

Aos domingos pela manhã, em pleno inverno curitibano nos encontrávamos na praça. Os equipamentos eram transportados da Embap – mesas, cadeiras, cavaletes, piano, barro, pranchetas etc –, e deixados em local combinado. Durante o dia, os artistas trabalhavam e também mostravam o que haviam feito na semana. Os alunos de música tocavam piano, os cantores se apresentavam com o coral. Levávamos também grupos de teatro que executavam peças breves.

Passados anos, reconhecemos que o formato de atelier livre funcionou como motivação coletiva. Mas reconhecemos que os colegas não tiveram maturidade para perceber a totalidade da grandeza da ideia criativa para o qual a iniciativa apontava como aão e autonomia de colaboração, de produção e inclusive de desenvolvimento profissional.

Já tínhamos ocupado a Praça Eufrásio Correia. No centro, da foto de TELMA SERUR, comentando possíveis ações e programa com a Profª e pianista Henriqueta Garcez. Ao fundo e sentado à esquerda, (engraxando os sapatos) Fernando Calderari; em pé, Plínio Verani, Sergio Moura e a professora enquanto Eduardo Nascimento olha prá lá…; mais atrás à direita, com blusão escuro, o inesquecível e saudoso Luís Carlos Andrade Lima troca ideias com Eleonora Gutierrez. No plano final, ainda no centro, atrás de nós, a sempre falante Eneide Hopkins, estudante pianista e única presença do curso da Música que estava conosco.

Com o apoio de alguns artistas solidários (Djalmir Alves, Djalma), e a adesão de colegas do curso de pintura, Tânia Buch, Priscila Sanson,  Eduardo Bittencourt do Nascimento, Plínio Verani Junior, Raul Borges da Cruz, Telma Serur, Silvana, Denise Roman, Maria Emília Possani, Selma Teixeira, Rossana Glovatski Guimarães, Geraldo Leão Veiga de Camargo, Pedro Girardello Neto, Paulo Tabajara, Mariângela, Paula Alves, Tânia Wanderley, Walter Montenegro, e Eneide Hopkins (única colega do curso de música), defendemos que aquela ação tinha peso e valores poético culturais, e apontava a possibilidade de se construir uma perspectiva sócio integradora de nossa comunidade de pretendentes artistas inicialmente matriculados numa instituição cultural conservadora, mas que, inegavelmente, ali estavam somente para frequentar o curso, não interessados em assumir sua identidade pessoal e tampouco construir uma condição profissional.

LOGO do projeto Praça da Arte, fundamentada no Semeador de Zaco Paraná.Segundo Nicolas Bourriaud, a partir da teoria da “estética relacional” é possível pensar a Arte como um estado de encontro, um fenômeno que só acontece em um espaço – tempo compartilhado entre atores e espectadores, condicionado por mecanismo de autopoiesis [1]: arte como um processo que gera acontecimentos e não obras acabadas, que só acontecem em relação. Em Estética Relacional, influente ensaio publicado em 1996, Bourriaud defende que a tendência da arte contemporânea é trabalhar na esfera das interações humanas e seu contexto social, mais que na afirmação de um espaço simbólico autônomo e privado. “A arte é um estado de encontro”, afirma o autor, “um lugar de produção de uma sociabilidade específica” que favorece os intercâmbios humanos e tem como tema central o “estar-junto” e a colaboração coletiva do sentido. Ainda que identifique a ascensão desse aspecto relacional na produção artística a partir dos anos 90, Bourriaud considera que, independente da historicidade do fenômeno, “a arte sempre foi relacional em diferentes graus, ou seja, elemento do social e fundadora de diálogo”. Nessa perspectiva, o “valor” da produção artística não reside em objetos acabados e, sim, no espaço de relação com o público onde “a obra representa a ocasião de uma experiência sensível baseada no intercâmbio”.

[1] A autopoiesis é um conceito desenvolvido pelos biólogos chilenos Humberto Maturana y Francisco Varela (1999) para designar a organização dos sistemas orgânicos, que foi posteriormente aplicado a várias outras áreas do conhecimento. Segundo os autores, o que define os sistemas vivos é sua organização autopoiética, que supõe a capacidade de auto produção e auto organização, em processos de contínua interação com o meio.

A semente criativa

A ideia original de ocupar um espaço público nasceu na minha cabeça, provavelmente estimulada pela experiência que eu havia tido no Museu de Arte Moderna – Rio de Janeiro, quando participei ativamente dos Domingos de Criação, experiência artística coletiva de criação levada a efeito por Frederico de Morais em 1971  nos jardins daquele museu (http://encontros.art.br/domingos-no-mam).

“O crítico e curador Frederico Morais convidou uma série de artistas para realizar diversas manifestações ligadas a materiais como o papel, a terra, o tecido, o corpo, o som e o fio. Cada domingo tinha seu título ligado a um questionamento crítico sobre o dia da semana consagrado ao ócio inerte das famílias. A proposta era oferecer novas formas de lazer criativo para a população da cidade, aliando arte e participação pública. Sucesso de público e crítica, os Domingos da Criação chegaram a reunir milhares de pessoas em suas edições e foram amplamente registrados na imprensa da época.”

Ao chegar em Curitiba, no ano seguinte, logo me deparei com o ambiente favorável dos Encontros de Arte Moderna, ideia semente de Adalice Araújo planejada para ser executada na Escola de Belas Artes do Paraná – Embap. Fato surpreendente para mim, embora fosse o que eu mais desejava pois queria dar continuidade às experiências anteriores para que reabrisse horizontes desconhecidos e renovadores. Foi então que resolvi frequentar a escola.

LOGO do projeto Praça da Arte, fundamentada no Semeador de Zaco Paraná.Ao entrar, minha primeira decepção: o ensino era excessivamente acadêmico, e o ambiente era apático e conservador. Entre os colegas estudantes, não existia o mínimo de troca pois não havia diálogo. Uma sensação terrível de que aquilo era permanente e não ia mudar. Estávamos em plena vigência da ditadura militar mas parecia que o golpe não havia acontecido. Ninguém sabia de nada e não se tocava naquele assunto.

Percebi a necessidade de dar um tempo, e tranquei minha matrícula. Uma viagem, e um tempo em casa foram providenciais para refletir e repensar o retorno. Ao participar do Salão de Novos, fiz o happening dos pássaros ( https://aartedesergiomoura.wordpress.com/sobre/). UNIDOS NA DOR E NA TRAGÉDIA DA HUMANIDADE, foi meu desabafo. Em primeiro plano, uma revolta por não aceitar que uma cidade que já tinha os Encontros de Arte Moderna e suas experiências ousadas pelas ruas da cidade, promovidos pela mesma escola matriz da arte paranaense, apresentasse um salão retrógrado que não valorizava de fato vivências do nível dos encontros criativos propostos. A classe artística não havia assimilado o fato senão como novidade prafrentex trazida de fora.

E decidi criar uma estratégia que tivesse ligações com o contexto de relações e a atividade prática, mas que promovesse um grande encontro fora da escola incentivando a todos cultivarmos uma nova realidade. Minha referência estava ligada às experiências vivenciadas nos jardim do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Meu foco era religar aqueles momentos poéticos com o que já havia acontecido durante os encontros proporcionados pela prof Adalice. Mas ninguém sabia de nada, e ninguém tinha a menor ideia de que a atividade artística poderia indicar outros caminhos para o artista atuar e criar que não fosse somente o isolamento do atelier fechado. Eu tinha a convicção de que essa prática estava superada, que o artista deveria buscar novos caminhos e um deles era certamente aproximar-se do público pois a arte iria chegar às ruas.

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