CRIATIVIDADE E PROCESSO

CRIATIVIDADE – O SER E O PRINCÍPIO DE TUDO !

O menino e a curica brincam com o vento no quintal

“ Existe uma vitalidade, uma força vital, uma energia, uma vivacidade que é traduzida em ação por seu intermédio, e como em todos os tempos só existiu uma pessoa como você, essa expressão é única. Se você a bloquear, ela jamais voltará a se manifestar por intermédio de qualquer outra pessoa, e se perderá”. Martha Graham

O grande trabalho da arte em nossos dias tem sido o de recriar o ser interno do homem, ajudando-o a se descobrir e a se integrar no mundo. A experiência direta da criatividade é única, não podendo ser repetida. Entre os caminhos que levam à consciência cósmica através de uma ampliação do campo da percepção se encontra a Arte.

O ato de criação é genuinamente um ato de presença, e portanto, criar é viver no presente. Cada instante criador corresponde à intensidade de um momento de vida. O momento criador, quando vivido intensamente, é um retorno à unicidade inicial. Importa, no momento criador, um esvaziamento de idéias e conceitos. Esta totalidade só poderá ser encontrada quando nos despojamos da análise intelectual.

O intelecto e os sentidos dificultam a criação do novo, impondo-lhe condicionamentos; quando ultrapassamos o raciocínio podemos perceber as coisas de forma direta e com maior nitidez.

Esta iluminação instantânea e a supressão dos chavões podem ser conseguidas no dia a dia, em todas as atividades rotineiras, desde que elas sejam feitas com espontaneidade e atenção. Neste momento de iluminação interior, o indivíduo percebe que não existe outro tempo a não ser o instante em que está vivendo; a vivência do “eterno agora”, o atemporal.

Viver intensamente o momento presente, descobrir o novo nos lugares comuns é perceber a totalidade da beleza da vida e nosso relacionamento com este eterno fluir da natureza e de toda criação. Experiências realizadas por Abraham Maslow em pessoas sadias vêm provar que a experiência culminante, ou consciência cósmica, não é privilégio de um grupo fechado de iniciados. Ela é possível a todos que estiverem com a sensibilidade afinada para a vida interior, seja através da arte, da ciência, da filosofia, da religião, da volta a natureza ou do próprio viver diário integrado com o universo.

Ela é alcançada quando o homem se relaciona com seus semelhantes rompendo as barreiras do ego, quando enxerga que não está sozinho, quando está em comunhão com tudo o que existe. “Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece em tudo que é vivo e presente”.

É conhecido que as culturas primitivas buscavam no silêncio e no contato com a natureza a percepção direta da Realidade Suprema. Se entendemos que nada é mais sábio que a natureza, e estamos realmente convencidos de que precisamos preservar princípios se quisermos evoluir, crescer e nos realizar progressivamente, temos de cultivar permanente harmonia com nosso meio e nosso bem estar, viver com alegria para poder alcançar a vida em sua plenitude.

No comportamento criativo uma pessoa sente dignidade, amor e bem estar emocional. Na verdade, segundo Erich Fromm, uma pessoa só é genuinamente feliz quando cria espontaneamente: “Na realização espontânea do eu o homem une – se novamente com o mundo – com o homem, a natureza, e ele mesmo. ” Durante a criação seu intelecto e seu sentimento encontram-se em harmonia, e ele  “ abraça o mundo ” com renovado vigor.

É o momento de ligação com a mais profunda essência de seu ser. Você supera qualquer obstáculo porque está integrado a sua própria natureza, sua verdade primeira. Tem consciência de sua energia vital e abre acesso a sua potencialidade surgindo daí os pensamentos criativos, porque o campo da potencialidade é o campo da criatividade infinita e do conhecimento puro.

A criatividade é um caminho espiritual. E a experiência espiritual não tem fronteiras nem culturais nem religiosas nem filosóficas.

O que precisamos é eliminar barreiras, bloqueios tornados empecilhos, inventados artificialmente e colocados entre os homens pelo próprio homem.

Este é o momento de romper com tudo e mostrar a todos que, se diferem os caminhos, todos eles levam ao encontro final dentro da unidade do ser universal.

Mas para vivenciar  realmente essa realidade precisamos compreender a homogeneidade  homem-natureza, o que significa viver com saúde, energia, entusiasmo pela vida, ter bons relacionamentos, liberdade criativa, tranquilidade e paz interior, enfim, precisamos de vida com qualidade e elevação como um todo . Essa comunhão o levará a uma interação harmoniosa com os elementos das forças vitais e lhe dará a sensação de união com todas as coisas vivas.

É visível o sentimento e a presença de um novo Renascimento, que se expande em direções mais vastas, alargando as dimensões do conhecimento humano. Este movimento não diz respeito apenas ao apogeu da cultura, das artes, da ciência. Ultrapassa-os. Atinge o homem em sua essência, projeta-o no cosmo. Desmistifica, descondiciona, liberta e conscientiza. A ação criadora que vem desta fonte interior nos liga às fontes da sabedoria.

A sabedoria, ou o conhecimento intuitivo direto das coisas, que não se adquire através de ensinamentos, mandamentos ou conceitos teóricos. Ela aflora espontaneamente, no momento devido, correspondendo a um determinado estado de evolução. Esta nova forma de conhecimento corresponde ao renascimento interno do ser humano. Conhecer, agora, não é teorizar e repetir, mas criar. E criar é viver, experimentar, sentir, intuir.

Todos temos o direito de criar, o direito à realização e à satisfação pessoal. Mas não se pode ficar apenas esperando que a Musa se manifeste. O que temos que expressar já existe em nós, somos nós, de forma que a principal coisa a fazer é desbloquear os obstáculos que impedem seu fluxo natural. Não precisamos apaziguar nossas paixões, disse Blake, mas tão somente ” cultivar nosso conhecimento… Tudo que vive é sagrado “. Também não podemos falar de “um” processo criativo, porque as personalidades são diferentes e cada pessoa é única no seu universo psicológico. O único caminho é percorrer e atravessar a complexidade, e os procedimentos que podem ajudar, cada um terá que inventar para si mesmo. A criatividade é uma sucessão de infinitas experiências, de rupturas, de insights. São momentos inesperados que ocorrem quando nos libertamos de impedimentos ou medos e BUM ! – a Musa se manifesta. Algo imprevisível salta de dentro do ser – desprendimento puro – e sentimos a clareza, o poder e a liberdade. Luz na cabeça, iluminação, mudança de coração. Nessa viagem não há ponto de chegada. A criatividade é então uma jornada para dentro da alma.

Nosso tema é inerentemente um mistério. Não pode ser colocado totalmente em palavras, porque diz respeito a profundos níveis espirituais pré-verbais.

Olhar para o processo criativo é como olhar dentro de um cristal: quando fixamos os olhos numa face, vemos todas as outras refletidas. Seus pré-requisitos são a alegria, o amor, a concentração, a prática, a técnica,o uso do poder dos limites, o uso do poder dos erros, o risco, a entrega, a paciência, a coragem, a confiança e a atenção.

Mas como poderemos produzir uma transformação dentro de nós mesmos? Como recriar em nós a delícia e o prazer do momento presente ? o sabor da conquista da livre expressão ? da total liberdade criativa, da qual emergem a arte e a originalidade ? de onde vem a arte ?

Podemos sim, mudar nossa realidade para alcançar os objetivos desejados. A verdadeira fonte de riqueza, concluiu Eugen Loebl, não é a produtividade, o PIB ou os bens tangíveis. A inteligência criativa é a riqueza absoluta de uma sociedade moderna. Milhões de pessoas atualmente já vivenciaram aspectos transcendentes da realidade e incorporaram tais conhecimentos a suas vidas.

A consciência não é um instrumento. É o nosso ser, o contexto de nossas vidas – da própria vida. A expansão da consciência é o mais arriscado dos empreendimentos sobre a Terra, pois coloca-se em perigo o status quo, o conforto.

Mas se não tivermos coragem para solucionar os conflitos decorrentes, coloca-se em perigo a sanidade. A experiência direta de uma realidade maior exige que mudemos nossas vidas.Devemos tornar nossas vidas coerentes com a consciência. A mente conhece agora aquilo pelo que o coração apenas esperava.Esta é a razão pela qual há a procura de uma religião pessoal, de uma ligação direta com a espiritualidade…Em última análise, todo ser humano, quando atinge o estágio de autoconsciência, quer sentir que existe um significado mais interior e profundo para sua vida do que apenas a existência e o consumo, e, uma vez que comece a sentir-se assim, deseja que sua organização social corresponda a esse sentimento… Isso está ocorrendo em escala mundial.

Agora, decididamente, para resgatar nossa divindade, a criatura divina que reside em nós, temos de viajar na nossa maior aventura, a aventura que só fala de nós, de nosso ser mais profundo, do criador que existe em cada um de nós.

Uma viagem no mistério da vida. Um mergulho no vazio da escuridão, mas o mesmo vazio ilimitado do infinito, onde ficamos quando conseguimos nos situar além da mente. Temos que correr o risco. Não nos realizaremos plenamente senão por este caminho, o encontro com o grande Ser, nosso Eu maior, nossa voz interior, a voz direcional que orienta nosso rumo.

A arte me ensinou a sentir, ver, escutar, não apenas o que é visível e aparente, mas especialmente (quem eu sou) o que existe oculto e invisível, o silêncio criador, o “maravilhoso vazio” imensurável. Nós somos originários do vasto desconhecido e por isso precisamos nos conhecer para viver melhor e tanto nos descobrir quanto também compreender  toda aquela grandeza existente, e da qual somos parte integrante e ativa.

Não somos máquinas e tampouco objetos de políticas viciadas, e por esta razão, devemos reagir sem demora para recuperar nosso bem maior, nossa maior força que é nossa liberdade e capacidade criativa. Devemos cultivar atividades que estimulem nossa sensibilidade, que sejam veículos de ajuda a nossa transformação. “Ser sensível é uma das mais belas manifestações do ser humano” diz-nos Krishnamurti. Não podemos nos entregar passivamente a tarefas sem significado, e ao contrário devemos tornar nosso trabalho algo prazeroso, uma vocação, e, portanto uma relação transformadora em marcha. O presente, o presente total, e nada mais que o presente. Isto nos permite aprender que as forças atuantes em nós são participações individuais da mesma energia atuando através de todo o universo.

Ser criativo, inocente para descobrir a criatividade que brota da experiência de desaparecer – um estado de pura absorção na brincadeira, aquele estado e sensação que as crianças conhecem bem; cultivando a cada dia e a cada instante a nossa mais antiga forma de sabedoria.

Só nos resta agir imediatamente. Trabalhar – viver com criatividade, de modo significativo e decidido, não importa o que estejamos fazendo, temos de nos manter alertas ao momento, dispostos a assumir riscos, buscar novos pontos de vista.

Ser, atuar, criar no momento presente, sem seguranças ou muletas. Cada momento é único – como um beijo, um pôr do sol, uma dança, uma piada. E nada voltará a ser como foi. Cada momento é efêmero e não pode ser repetido, corrigido ou capturado; vida e morte, presentes num dueto constante, em movimento e sincronicidade: um encontro genuíno de pura liberdade. Tudo acontece apenas uma vez na história do universo. Tudo isso é auto conhecimento (um rio sem fim) o conhecimento direto do ser total, pela experiência direta do ser criador – o supremo terreno da criação – onde todas as coisas estão inseparavelmente conectadas a tudo que existe. Nós somos um.

Referências Bibliográficas: Maria Helena Andrés– “Os Caminhos da arte”, ed. Vozes; Stephen Nachmanovitch – “Ser criativo”, Summus Editorial; Marilyn Ferguson – “A Conspiração Aquariana “, ed. Record ; Fayga Ostrower – “Criatividade e Processos de Criação “, ed. Vozes ; Deepak Chopra – ” As Sete Leis Espirituais do Sucesso “, ed. Best Seller ; Rollo May – “A Coragem de Criar “, ed. Nova Fronteira ; George F. Kneller – “Arte e Ciência da Criatividade “, ed. IBRASA ; Krishnamurti –  ” El Estado Creativo de la Mente “, ed. Kier ; Alan Watts – O Homem e a Natureza ” ; Kandinsky – ” Do Espiritual na Arte “.

Sergio Moura: Artista plástico, artista educador, serígrafo e professor de arte; formado pela EMBAP – Escola de Música e Belas Artes do Paraná; especialista em História da Arte Moderna e Contemporânea pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná; realizou 20 exposições individuais; participou de inúmeras coletivas, salões, fórum, debates, festivais de arte; membro fundador da Associação Profissional dos Artistas Plásticos do Paraná – APAP/PR; orienta cursos, oficinas (workshops) e desenvolve palestras sempre enfocando a arte como atividade indispensável ao aprimoramento; trabalha regularmente em seu próprio espaço, produzindo pinturas, serigrafias; projetos educativos e projetos coletivos.  

ser_moura@ig.com.br & asbdemoura@gmail.com

www.aartedesergiomoura.wordpress.com

http://artixxaoarlivre.blogspot.com

Palestra comentada com projeção dos slides abaixo

 O Processo criativo e sua fases.

Minha ideia central sempre foi a de que ser criativo é realizar-se como pessoa. Segundo George F. Kneller, em seu livro Arte e Ciência da Criatividade, “cada um de nós constitui um padrão singular de potencialidades; cada um de nós dá à vida, e dela recebe, algo que jamais se repetirá.”

É bem divulgada a existência, no processo criador, de quatro fases em geral conhecidas como preparação, incubação, iluminação e verificação. (1) É possível que o ciclo criador possa ser dividido nessas fases, embora seja possível também duvidar se deve obedecer essa divisão. E muitos estudiosos duvidam. (2) Argumentam que os vários processos que envolvem na criação, são tão complexos, que seria precipitado defini-los numa simples sequência.

continua,

Palestra realizada no Museu Oscar Niemeyer MON, agosto 2015

“Existe uma vitalidade, uma força vital, uma energia, uma vivacidade que é traduzida em ação por seu intermédio, e como em todos os tempos só existiu uma pessoa como você, essa expressão é única. Se você a bloquear, ela jamais voltará a se manifestar por intermédio de qualquer outra pessoa, e se perderá”.

Martha Graham

Criatividade – O Ser e o princípio de tudo

O ato de criação é genuinamente um ato de presença, e, portanto, criar é viver no presente. A arte é atividade essencial a vida humana. Investigar e pesquisar sua origem no desenvolvimento do conhecimento básico da civilização possibilitará identificar este processo como sendo a raiz de tudo que existe no universo humano.

Olhar para o processo criativo é como olhar dentro de um cristal: quando fixamos os olhos numa face, vemos todas as outras refletidas. Seus pré-requisitos são a alegria, o amor, a concentração, a prática, a técnica, o uso do poder dos limites, o uso do poder dos erros, o risco, a entrega, a paciência, a coragem, a confiança e a atenção. O que precisamos é eliminar barreiras, bloqueios tornados empecilhos, inventados artificialmente e colocados entre os homens pelo próprio homem.

Segundo Erich Fromm, uma pessoa só é genuinamente feliz quando cria espontaneamente: “Na realização espontânea do eu o homem une – se novamente com o mundo – com o homem, a natureza, e ele mesmo.” Durante a criação seu intelecto e seu sentimento encontram-se em harmonia, e ele “abraça o mundo” com renovado vigor. É o momento de ligação com a mais profunda essência de seu ser. Tem consciência de sua energia vital e abre acesso a sua potencialidade surgindo daí os pensamentos criativos, porque o campo da potencialidade é o campo da criatividade infinita e do conhecimento puro.

Metodologia

Propomos experiência múltipla. De natureza vivencial, providenciamos como dinâmica interligar debate – exercícios visando estimular a reflexão sobre a dimensão real e relacional do processo criativo.

A abordagem revela também diversos pontos de vista de artistas, pensadores e pesquisadores que se debruçaram sobre o assunto.

Focos objetivos a serem preservados:

1 Exaltar a urgência do ser humano recuperar sua capacidade criativa, justificando essa iniciativa como ação de vida saudável e de fortalecimento diante do mundo cada vez mais adverso;

2 Fases do Processo Criativo:

– Primeira apreensão – Preparação:

Em geral, o momento da criação só ocorre após demorada preparação consciente seguida por intervalo de atividade não consciente. Foi o que aconteceu com Nietzsche em Assim falou Zaratustra, com Milton em Paraíso Perdido, e com Melville e seu Moby Dick. Foi somente com o passar do tempo que se revelaram as possibilidades simbólicas.

Na segunda fase o criador lê, anota, discute, indaga, coleciona, explora. Propõe possíveis soluções e pondera suas forças e fraquezas. Como disse Picasso certa vez, “O artista é um receptáculo de emoções que vem de tudo que há no  lugar; do céu, da terra, de um pedaço de papel, de uma forma fugaz, de uma teia de aranha”.

Meu primeiro insight:  “COMO DESCOBRI A ARTE… contemplando o céu, da janela da minha casa.

O céu o limite do olhar. Luz, brilho e o fundo azul como palco maior de um show lúdico visual. Sobre a cabeça os personagens de um festival raro, singular. “Pássaros vivos de papel e cor dançavam no ar e brincavam com o vento.”

 – Incubação:

O período de preparação consciente é seguido por um tempo de atividade não consciente na qual as idéias “são enterradas”. Então o inconsciente sem limites, desimpedido pelo intelecto literal, faz as inesperadas conexões que constituem a essência da criação. O período de incubação deve existir e a inspiração não pode existir sem o trabalho do inconsciente, seja por seis meses, por seis horas ou seis minutos. E são muitos os casos em que poetas carregam nos bolsos pedaços de papéis, esperando o momento de inspiração que funde esses fragmentos num poema único.

– Iluminação:

É o momento em que o criador já alcança um clímax pois de repente ele percebe a solução de seu problema. Após longos anos de preparação Isaac Newton produziu a lei da gravitação, após ver a maçã cair em seu jardim. Do mesmo jeito Charles Darwin que durante anos guardou informações sobre a evolução das espécies, mas somente depois é que teve a solução passeando na estrada em sua carruagem.

Gardner Murphy fala de um momento de “iluminação”, em que se dá a “integração;

Elisabeth Schneider afirma que na criação há um ponto de “auto-suficiência ou “solidão” em que a imaginação assume o comando;

Helge Lundholm acha que a arte é criada aparentemente em estado de “relativa ignorância, seja do motivo seja do caráter final do produto artístico que resulta”.

Frederico Fellini dizia frequentemente…na escuridão eu crio!

A inspiração é imprevisível e também autocertificável, pois a pessoa criadora se acha convencida da correção de sua intuição antes de verificá-la logicamente. Ainda mais, a inspiração é uma das mais intensas alegrias que o homem conhece.

“Jamais esquecerei: o coração acelerado e eu perplexo com aquela situação! Não era um sonho. Havia algo de mágico e não conseguia definir bem, mas, sentia o mistério oculto e era, sobretudo o que atraía e encantava: a Beleza, sua dimensão e plenitude e eu ali na janela da minha casa no Boulevard Amazonas, fascinado pela alegria, pela emoção e pelo desejo de voar.”

– Verificação:

Entra agora o processo criador em sua última fase, de verificação ou revisão. Do que faça o criador com esse material é que depende tomar, este, formas acabadas. O intelecto e o julgamento têm de terminar a obra que a imaginação deu início. O criador terá que distinguir, nesse material, o que é válido do que não o é, pois a iluminação é notoriamente falível. A tarefa de verificação pode demorar e durar anos como vimos em Newton e Darwin. E além do mais, no curso da revisão, é possível que o criador encontre outras intuições que venham atrapalhar sua primeira concepção.

E o ciclo criador parece contar cinco fases que, apesar de logicamente separadas, só raramente se mostram tão distintas na experiência. Primeiro há o impulso para criar, seguido de um período que pode demorar em que o criador recolhe material e investiga métodos diferentes modos de trabalhá-lo. A seguir vem um tempo de incubação na qual a obra procede inconscientemente. Então surge o momento mágico de iluminação, e o inconsciente anuncia de súbito os resultados de sua lida. Por fim, um processo de revisão em que os dados de inspiração são conscientemente elaborados, alterados e corrigidos.

Condições de Criatividade:

Receptividade, Imersão, Dedicação e Desprendimento, Imaginação e Julgamento, Interrogação, Uso dos Erros e Submissão à Obra de Criação.

No Uso dos Erros, uma de suas características principais é a amplitude de suas abordagens. E uma das suas marcas é não aceitar o erro como final, mas como razão para mudar ou, para modificar a abordagem. A pessoa criativa deve então tratar seus erros com respeito, para ver aonde eles conduzem. No fazer artístico, os acidentes sempre indicam o caminho de uma solução criativa que, não raramente surpreendem e mostra novo caminho a se tomar. Na pintura, na gravura…

3 Comentar o que é, e como se manifesta o movimento relacional de cada fase; e citar aqui Nicolas Bourriaud (Estética Relacional): a arte, tem como tema central a relação, o estar junto, o encontro propriamente dito. A arte é lugar de produção de uma sociabilidade, é o espaço dos encontros; (http://wp.me/P14VgS-u)

4 O artista proponente fala de sua experiência particular, de como vislumbrou a arte contemplando o céu ( http://wp.me/P14VgS-1m), e sintetiza verbalmente seu processo criativo.

5 Solicitar exercícios práticos inspirados no material projetado.

Exemplo de exercício: com base na prancha (QUE SERIA DE NÓS SEM A ARTE ?): o autor sugere ao coletivo que criem signos, objetos, formas e gestos…

– O tempo para a reflexão / criação será de 15 minutos;

– Em seguida, abriremos para comentários sobre a apresentação da idéia formatada, seu conteúdo e suas considerações;

E finalmente, faremos breve recapitulação do Processo Criativo e suas etapas;

Considerações complementares:

Comentar manifestos de alguns autores, artistas e personalidades, pertinentes ao assunto;

1 Charles Baudelaire: Embriagai-vos

É preciso estar-se sempre embriagado. Tudo está aí: é a única questão. Para não se sentir o horrível fardo do Tempo que parte os vossos ombros e vos curva em direção a terra, deveis vos embriagar sem trégua. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiserdes. Mas, embriagai-vos.

E se à vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a relva verde de uma vala, na solidão isolada do vosso quarto, vós acordardes, e a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que passa a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão: “São horas de vos embriagar! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos, embriagai-vos sem cessar! ”

De vinho, de poesia ou de virtude: como quiserdes.

2 Rollo May comenta Schiller: “ Só a beleza outorga a felicidade a todos, e sob sua influência cada ser esquece que é limitado. Nossos limites procedem do fato de sermos natureza tanto quanto espírito, finitos e infinitos, objetivos e subjetivos. Ninguém conhece esta luta melhor do que os artistas, sejam eles pintores, escultores ou dançarinos pois eles disputam com o destino, em seu afã de tornar objetiva a sua visão subjetiva interior. Só a beleza, nosso segundo criador, nos possibilita atingir e tornar real a humanidade. A idéia principal de Schiller – e a inspiração como eu chamaria – é que a beleza nasce do ato lúdico, enquanto se brinca. “O Homem só é integralmente homem quando brinca e só brinca quando é verdadeiramente homem.”

3  João Turin: Primavera de 1934.

Quis, na manhã desse dia, amanhecer longe, longe da turbulenta cidade. Quis despertar no meio da natureza, bem longe, num bosque solitário onde não houvesse o rumor das máquinas, nem o roncar dos automóveis. Quis, despertando, respirar o ar puro e ouvir o sussurro das aves e das folhas secas levadas pelo vento.

Foi assim que nessa manhã encantadora e bela, despertei quando os primeiros raios do sol estenderam-se como flechas por sobre toda a extensão das matas.

Tudo era alegria sobre a terra maravilhosa fecunda e bela. Levantei da fresca relva, respirei e abri os braços, e meus braços se estenderam por toda a superfície imensa da terra em que nasci. E tudo respirou como eu respirei e tudo cantou como eu cantei. Cantou os bosques, os vales e montanhas. Cantou a passarinhada nas frondosas e floridas copas em toda a extensão das matas. Cantou a saracura e os nhambus entre as folhagens dos vales.

Tudo estava em festa no calor desse dia. O sol subia acompanhado de longas nuvens que pareciam pinceladas de mil cores. Subia, beijando toda a natureza que despertava alegre cantando a canção eterna da primavera.

Diante de tanta beleza senti-me grande e puro como um deus antigo e de meu peito saiu um canto forte e sonoro que se repetia pelos vales e montanhas.

4 Fayga Ostrower: Vejamos o que diz a gravadora e artista educadora

“O mundo inteiro, material e espiritual, transformou-se num vasto mercado. Vemos que tudo, absolutamente tudo, está sendo reduzido ao nível de mercadorias a serem vendidas e compradas, consumidas o mais rapidamente possível para, logo em seguida, serem descartadas e novamente substituídas. Também os seres humanos, seu trabalho, seu potencial criador, suas obras de arte não passam de mercadorias. Compram-se e vendem-se .

E tudo tem o seu preço. O preço é a medida das coisas. Assim, proclama-se: preço é igual a valor. E ainda surgem outras equivalências: novidade é igual a criatividade, originalidade é igual a sensacionalismo. Cabe entender, porém, que tais equivalências não existem.”

– Considerações finais:

“A existência dita humana, afetada radicalmente em seu curso normal de trocas, incentivadas que deveriam ser pela convivência solidária e compartilhada, está reduzida pelo imediato desejo de consumir, fragmentada em suas relações a começar por dentro das casas até porque, tornou-se absolutamente necessário muito tempo de trabalho e esforço em suprir as exigências que o padrão moderno de vida exige para prover e pagar o preço pelo que é consumido.” ( http://wp.me/P14VgS-qb)

Referências bibliográficas:

 Nicolas Bourriaud – “Estética Relacional”, Martins Editora;
 Stephen Nachmanovitch – “Ser criativo”, Summus Editorial;
 Fayga Ostrower – “Criatividade e Processos de Criação “, Ed. Vozes;
 Rollo May – “A Coragem de Criar “, Ed. Nova Fronteira;
                           “Minha Busca da Beleza”, Ed. Vozes;
 George F. Kneller – “Arte e Ciência da Criatividade “, Ed. IBRASA ;
 Kandinsky – “Do Espiritual na Arte”; Martins Editora;

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