década de 1960: ponto de partida e rumos

Início de um longo caminho.

Era 1965 e ao mesmo tempo que o Brasil ressentia o golpe político militar imposto, e os movimentos sociais e culturais explodiam, eu tinha resolvido frequentar a Pinacoteca do Estado do Amazonas para estudar pintura e desenho com Álvaro Páscoa, Moacir de Andrade e Manoel Borges. Foi neste lugar que conheci Hahnemann Bacelar pintor amazonense, falecido em 1971. Sua pintura é tão vibrante que costuma emocionar a quem contempla.

O escritor Gabriel Garcia Marques, quando esteve em Manaus, sensibilizado apelidou-o de “ o Gaughin da Amazônia ”, aquele que podemos considerar um dos maiores artistas amazonenses em todos os tempos. Convivemos durante muitos anos – desenhando, pintando, montando ambientais (atualmente instalações) –, vibrando juntos com o som arrebatador dos extraordinários Zeppelin, Joplin, Hendrix, Beatles, Stones, Who, Santana, Mamas and Papas, Dylan, Cocker, Havens, Clapton, Mutantes entre outros.

A partir de então, tudo mudou. Com Hahnemann, aconteceu que, pelas diferenças pessoais e ao mesmo tempo, pela afinidade que tínhamos com a atividade artística, houve a completude que consolidou a amizade contínua. Éramos “dois garotos que amavam os Beatles e os Rolling Stones”, jovens com a vida pela frente e a sedutora perspectiva de viajar para descobrir novos caminhos além da margem que o Rio Amazonas, naquela época, estabelecia como fronteira quase intransponível para quem não tinha a facilidade de comprar uma passagem de avião.

Foi o momento de “botar o pé na estrada”, à decisão de deixar a cidade.

Hahnemann era um sujeito introspectivo, observador sensível e supercrítico. Ao conhece-lo em meados de 1967, reparei que ele já estava em conflito com o que fazia, artisticamente falando. Havia parado de pintar, talvez pelo fato de ter conhecido no Rio de Janeiro outras possibilidades de ser artista e de fazer arte. O fato é que ele percebeu que a criação artística não se limitava ao quadro, ao suporte físico, aos materiais e provavelmente descobriu que o artista tinha poder muito maior do que aquele que antes ele imaginava.

Ele descobriu que a atividade artística podia ser exercida como experiência mais informal, lúdica e divertida ao invés do trabalho sempre disciplinado e obediente à técnica. Estive várias vezes em sua casa num conjunto habitacional onde morava com a mãe, com irmãos e com o padastro, com quem não tinha bom relacionamento. Aliás, todas as vezes em que estive em sua casa, saí de lá incomodado e com péssima impressão do convívio entre eles.

Dessa maneira, pude observar como trabalhava, qual seu método e como procedia desde o início até o fim quando pintava. Ele era essencialmente um pintor, embora soubesse desenhar com a mesma competência que pintava pois havia aprendido a lição com seu mentor Alvaro Páscoa. Mas seu método de trabalho era sem dúvida acadêmico, rígido e um tanto primário: desenhava cuidadosamente a(s) figura(s) sobre um papel, que passava para outro e finalmente decalcava sobre a tela para em seguida pintar. Mas era artista tanto no desenho quanto na pintura pois conhecia profundamente ambas as linguagens.

Em 1968, trabalhamos para uma exposição coletiva no SESC durante bom tempo. Decidimos fazer uma obra em parceria. Mas resolvemos que levaríamos também alguns trabalhos produzidos. E optamos por montar no local um enorme objeto mole de arame que balançava no espaço. Fincado no chão, o objeto tinha em torno de 6 metros de altura por 1 metro de largura na base. Todo em arame de aço, enrolado em espiral e amarrado para assegurar sua sustentação, a peça buscava o teto local mas sempre preservando sua condição de flexibilidade dando a impressão de uma grande minhoca. Os militares imediatamente enxergaram naquilo algo fálico e quando chegamos no dia seguinte para dar últimos retoques, nossa surpresa: tudo destruído e inclusive os trabalhos fixados na parede. Hahnemann ficou deprimido, e voltamos para casa sem nenhuma palavra sequer dos responsáveis pelo evento.

13 respostas para década de 1960: ponto de partida e rumos

  1. Decio Viana disse:

    Meu nobre, como posso conhecer a amazonia atraves das Obras de Bacelar, como este via a amazonia nesta época, que personalidade forte transmitira em suas obras?
    Aguardo retorno…
    Decio Viana

    • sergiomoura disse:

      Décio: muito já se especulou sobre este artista amazonense atualmente esquecido em Manaus. Embora tendo a vida interrompida precocemente, deixou uma obra madura, forte e significativa. O Hahnemann é sem dúvida um dos artistas mais autênticos que o Amazonas conheceu e que deverá receber o tratamento que merece.

  2. Decio Viana disse:

    Meu caro, me sinto com a missäo de estudar suas obras, nao pela qualidade do trabalho e sim pela essencia amazonica que busco em suas obras. Esta essencia chama-se “identidade” e acredito que Bacelar pela sua autenticidade tenha expressado isto em seus trabalhos.
    Se houver algo que possa me ajudar estarei no aguardo…
    Decioviana

    • sergiomoura disse:

      Num mundo que enfraquece cada vez mais a construção e a realização de identidade do ser, podendo inclusive impedir que isto floresça, sendo parte fundamental na formação, no crescimento e no aprimoramento da formação de um indivíduo, quiçá do ente humano, chega a ser providencial que alguém como vc possa realizar este enorme benefício a cultura, ao nome de Hahnemann Bacelar, ao patrimônio cultural do Amazonas. Antes tarde do que nunca.
      Mas, quem é vc se me permite indagar, para conhece-lo, uma vez que, pela história que este brilhante personagem amazonense provoca e pode promover, e não existe no Amazonas algum artista, algum outro homem, que tenha convivido tanto quanto ou mais que eu, suponho, quero me colocar a sua disposição para o necessário. Talvez, se devemos lembrar de outro homem, todavia já falecido que tenha convivido com
      Hahnemann mais que eu porém na adolescência, foi seguramente Alvaro Pascoa, que aliás, tbém foi meu professor.

  3. Decio Viana disse:

    Sergio Moura, boa tarde!
    Há possibilidade de uma descriçao de sua parte, de suas experiencias e sua vivencia com Becelar e tambem com o grande mestra Alvaro Pascoa. Como era a didatica de suas aula? Como se portava diante da representaçao amazonica da obra?como conduzia seus ensinamentos?qual a proposta da arte dada ao seu aprendizes?e como o aprendiz de arte interpretava ou absorvia estas informaçoes? Enfim ensinava a viver a arte sua autenicidade e originalidade? Desculpe o bombardeio…mas vivemos de indagaçoes…
    Decio Viana, professor de arte.

    • sergiomoura disse:

      Companheiro: eu sei q já me coloquei a sua disposição para lhe dar o suporte ao que necessita. Mas o q não me respondeu, diz respeito a vc, no ptº de vista de eu saber com quem estou conversando: quem é vc; de onde é; o que faz; essas coisas básicas. Poderia me responder?
      Reitero mais uma vez q pode contar comigo para seu objetivo mais imediato. Aguardo,

  4. Decio Viana disse:

    Sergio Moura, desculpe-me, sou professor de Arte em Manaus, realizei a tempos atras atividades artisticas em artes plasticas, mas me apaixonei pela pesquisa, tenho 36 anos, vivi bastante tempo de ateliê, até me envolver no universo academio. Meu interesse maior é unicamente desenvolver um projeto a nivel de mestrado e futuramente expandi-lo a outros artista amazonese – puramente com caracter didático, já que aqui dificilmente há uma inserçao de artistas da terra no curriculo.
    Peço desculpas mais uma vez…
    Decio Viana

  5. Decio Viana disse:

    Feito!!!

    • sergiomoura disse:

      Décio: preciso saber da urgência de sua necessidade; do prazo em que vc gostaria de receber minhas colocações-respostas; isto é importante por causa de algumas tarefas que no momento estou encerrando aqui em Ctba. Aguardo.

  6. ANDRE VARELA disse:

    Chamo-me André Varela, 37 anos,moro em Manaus, professor primario, estudante de filosofia e realizador cinematográfico. Tenho 2 curtas experimentais participantes de alguns festivais-nada tao importante e, durante 10 anos tendo filmar um roteiro meu sobre Hahnemann Bacelar (isso sim pra mim é importante. Já participei de varios concursos e alguns projetos na tv cultura e nunca consegui resposta positiva a tal empreitada. Conheço a obra de Hahnemann desde criança e acompanha cada detalhe. Se o Brasil é um pais curto de memoria imagina aqui no amazonas. Vc me caiu do céu assim como alguns colegas que aqui citam o referido artista. No meu projeto cinematográfico abordo principalmente os desejos e visões de Hahnemann, quero abordar todos os sufocos que o levaram a gritar através da tela. para isso, as pessoas que o acompanharam é de suma importancia para tal projeto. o nome do roteiro se chama Hahnemann por Hahnemann. Queria de voce ao menos uma entrevista. seria algo monumental ao meu projeto. Durante todos esses anos muitos não desejam se expressar sobre o tema, sobre o artista, sobre o homem. quem sabe voce sera quem me mostrara a luz ao fim do tunel. Não sei que medo é esse de tratarem do tema. não querem se envolver e torna-se muito difícil colher material. Por tudo que voce possa me ajudar eu tenho desde já meus sentimentos sinceros.
    andre varela manaus
    email. andrevtaveira@bol.com.br
    92-3081-2614
    grato

  7. monik ventilari disse:

    olá, sou monik ventilari e estou fazendo o meu trabalho de conclusão de curso que é sobre as obras do Hanemann Bacelar e gostaria de ter informações sobre ele pois a sua fala é muito detalhada e como historiadora é muito rica. podemos entrar em contato e conversar?

    agradeço. aguardo resposta.

    monik ventilari

    • sergiomoura disse:

      Monik:
      Quem indicou meu nome para vc?
      Quais informações vc necessita?
      Como vc pretende reconhecer meu gesto de contribuição? nem pense que estou lhe cobrando dinheiro todavia, isto sim, uma responsabilidade, um procedimento de que vc irá reconhecer a ajuda prestada, entendido?
      SM

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